Os lábios se distanciavam por um centímetro. Não dois pares de lábios, dois lábios. Nunca vira superior e inferior se tocando. Eles só pairavam num rosto sonolento e desavisado.
Era provavelmente uma condição médica, porque o garoto respirava pelas papilas. Se não fosse doença, não tinha desculpa que justificasse aquele espaço de um dedo no meio da boca.
Até comendo. Ou o garoto engolia de boca aberta ou só quando ninguém estivesse olhando. Não era possível! Pra mastigar, de boca fechada ele não fazia questão. Deviam filmar a boca dele durante uma refeição. Daria pra explicar a digestão do amido de forma dinâmica.
E o garoto da boca aberta tinha um amigo de bochechas grandes. Ela podia jurar que uma mão espalmada não cobriria toda a área de possível contato, a bochecha dele se media em pés. Elas sobrepunham a boca e geravam um visual ‘Emília a procura do visconde’
Perto daquelas bochechas, até o nariz se inibia, os olhos fitavam miúdos e as orelhas se escondiam. Pra complementar, as bochechas eram fora do contexto, pois o menino era magro. Muito magro. O peso da cabeça fazia com que andasse pendulante.
Ao lado dele se sentava uma garota loira de cabelo descolorido e ressecado que era amiga de outra com gengivas que vazam os lábios. A loira namorava um menino narigudo com estômago alto que respirava pelo diafragma como uma criança de cinco anos.
Taís, a observadora, não tinha lábios separados, nem bochechas grandes, nem cabelo ressecado, nem gengivas aparentes, nem assunto.
terça-feira, 10 de maio de 2011
terça-feira, 19 de abril de 2011
O pátio
Caminhava em passos desajustados, pendendo para as laterais. As calças grandes se prendiam logo abaixo do umbigo por um cinto verde musgo extra grande. A camiseta que folgava no ombros e apertava na barriga, sobrepunha o jeans e ressaltava a fivela prateada. Com pés curvados, usava um tenis com cadarços soltos cor marrom-pisoteado.
Carregava em seus braços livros que escapuliam pelas direções, e de modo desajeitado, segurava pelas rebarbas, caadernos abertos com folhas escapando das espirais. Com as mãos ocupadas, levou o rosto até a palma numa tentativa de ajeitar o aro dourado do óculos que escorregava pelo nariz. Acabou por imprimir as digitais do punho na lente esquerda.
Escalava até o outro lado do pátio da escola, por entre os estudantes, na expectativa de chegar até a sua sala com os livros inteiros. Os cadarços soltos ricocheteavam nas canelas e nas meias cinza escuro. Suor escorria por sua testa, desviando das espinhas e se concentrando na sobrancelha.
Foi quando o viu. O jovem formoso com boné para trás e pés direitos. Rodeado por capangas, tinha seus cadarços presos, e nem uma gota de suor. Com sua mochila quase vazia, usou as mãos livres para arrumas o óculos de sol, riu e gritou: ‘Depressa, Bujão!’.
A voz ecoou pelo pátio e os chapas começaram a rir repetindo: ‘Depressa, Bujão!’, alguns até encrementavam: ‘corre pra ver se emagrece!’
Por um mar de risadas ele se esquivou pela multidão, lutava contra os livros, e também contra as lágrimas, que se misturavam ao suor e camuflavam a humilhação que lhe escorria sob as pálpebras.
Carregava em seus braços livros que escapuliam pelas direções, e de modo desajeitado, segurava pelas rebarbas, caadernos abertos com folhas escapando das espirais. Com as mãos ocupadas, levou o rosto até a palma numa tentativa de ajeitar o aro dourado do óculos que escorregava pelo nariz. Acabou por imprimir as digitais do punho na lente esquerda.
Escalava até o outro lado do pátio da escola, por entre os estudantes, na expectativa de chegar até a sua sala com os livros inteiros. Os cadarços soltos ricocheteavam nas canelas e nas meias cinza escuro. Suor escorria por sua testa, desviando das espinhas e se concentrando na sobrancelha.
Foi quando o viu. O jovem formoso com boné para trás e pés direitos. Rodeado por capangas, tinha seus cadarços presos, e nem uma gota de suor. Com sua mochila quase vazia, usou as mãos livres para arrumas o óculos de sol, riu e gritou: ‘Depressa, Bujão!’.
A voz ecoou pelo pátio e os chapas começaram a rir repetindo: ‘Depressa, Bujão!’, alguns até encrementavam: ‘corre pra ver se emagrece!’
Por um mar de risadas ele se esquivou pela multidão, lutava contra os livros, e também contra as lágrimas, que se misturavam ao suor e camuflavam a humilhação que lhe escorria sob as pálpebras.
domingo, 3 de abril de 2011
A efemeridade do mundo.
A vida é efêmera. Foi o que me disseram. Concordei por algum tempo, mas agora discordo. As pessoas é que são. Nossas ações fazem apologia à efemeridade. A frequência com que desistimos das chances, dos dons, dos objetivos, das pessoas.
Quando criança, fiz aula de violão, parei. Na adolescência, não entendi química, nunca mais tentei aprender. Pratiquei o desleixo, a protelação, o desapego. Quantas amizades, que iriam durar para sempre, acabaram. Não é uma pergunta, é uma afirmação. E a efemeridade não vem só de um, ela inunda o nosso dia a dia e nos acostumamos a viver imersos na filosofia de que a vida é feita de fases, de que quando uma porta se fecha, uma janela se abre.. Culpamos à distância, a rotina, um desentendimento, sempre estamos ocupados demais.
Nossos amores se reciclam. O problema não é o fim. Mas sim a falta de garra com que encaramos nossos problemas, nossas relações. Quantos divórcios são assinados, quantas amizades acabadas por simples preguiça, comodismo, covardia de assumir que estamos do lado errado da discussão, orgulho. Ah o orgulho! Somos todos Ego, somos todos Ísta. Somos preenchidos por um orgulho cego, que inebria nossas ações.
E sempre seguimos, porque afinal estamos vivos e é isso que importa. Tem sempre um copo de cerveja gelada, com gotículas de água condensada escorrendo por fora do vidro, esperando pela gente sexta feira. Porque o que importa é a festa, não a companhia. O que importa é a foto irradiando felicidade, é a imagem que os outros veem da gente, não o que a gente realmente sente.
O vazio, a solidão, isso é coisa de gente deprimida. Mas nós não. Nós somos amados, felizes, não damos a mínima pras coisas que passaram, porque estamos sempre em outra. Vivendo o presente, almejando um futuro que nunca chega. Todo mundo é feliz, todo mundo sabe sambar. Nunca somos derrotados.
É esse pensamento febril, doente que permite a prática da efemeridade, que permite o fim sem nem ao menos tentar. As pessoas tem vergonha de correr atrás, de se redimir, pedir desculpas. Nós somos muito seguros de nós mesmos e nunca cometemos erros. Vivemos a vida, na mais completa inversão de valores e tudo bem. Porque enquanto o coração bater, e o sorriso estiver estampado na foto da balada, nada mais importa. Somos efêmeros.
Quando criança, fiz aula de violão, parei. Na adolescência, não entendi química, nunca mais tentei aprender. Pratiquei o desleixo, a protelação, o desapego. Quantas amizades, que iriam durar para sempre, acabaram. Não é uma pergunta, é uma afirmação. E a efemeridade não vem só de um, ela inunda o nosso dia a dia e nos acostumamos a viver imersos na filosofia de que a vida é feita de fases, de que quando uma porta se fecha, uma janela se abre.. Culpamos à distância, a rotina, um desentendimento, sempre estamos ocupados demais.
Nossos amores se reciclam. O problema não é o fim. Mas sim a falta de garra com que encaramos nossos problemas, nossas relações. Quantos divórcios são assinados, quantas amizades acabadas por simples preguiça, comodismo, covardia de assumir que estamos do lado errado da discussão, orgulho. Ah o orgulho! Somos todos Ego, somos todos Ísta. Somos preenchidos por um orgulho cego, que inebria nossas ações.
E sempre seguimos, porque afinal estamos vivos e é isso que importa. Tem sempre um copo de cerveja gelada, com gotículas de água condensada escorrendo por fora do vidro, esperando pela gente sexta feira. Porque o que importa é a festa, não a companhia. O que importa é a foto irradiando felicidade, é a imagem que os outros veem da gente, não o que a gente realmente sente.
O vazio, a solidão, isso é coisa de gente deprimida. Mas nós não. Nós somos amados, felizes, não damos a mínima pras coisas que passaram, porque estamos sempre em outra. Vivendo o presente, almejando um futuro que nunca chega. Todo mundo é feliz, todo mundo sabe sambar. Nunca somos derrotados.
É esse pensamento febril, doente que permite a prática da efemeridade, que permite o fim sem nem ao menos tentar. As pessoas tem vergonha de correr atrás, de se redimir, pedir desculpas. Nós somos muito seguros de nós mesmos e nunca cometemos erros. Vivemos a vida, na mais completa inversão de valores e tudo bem. Porque enquanto o coração bater, e o sorriso estiver estampado na foto da balada, nada mais importa. Somos efêmeros.
domingo, 20 de março de 2011
Nó
Lavou o rosto com angústia e buscou a camisa, emprestada do patrão, na cadeira. Sentiu o algodão, que corria por seus braços e passou os botões por dentre o tecido listrado. Vestiu a calça social cinza, comprada para o enterro do pai, e na falta de cinto formoso, usou um cadarço amarrado a outro. Vestiria sempre o paletó.
Vestiu o pé com meias esportivas tingidas com anilina preta, e por cima os sapatos formais que ganhara do tio. Provavelmente o veria. Pegou a gravata azul, comprada para a ocasião, e passou ao redor do pescoço.Deu um nó com perfeição e o deixou frouxo. Não gostava do nó tocando a garganta. Puxou, pelo colarinho, o paletó que antes estava cuidadosamente dobrado e saiu.
Checou os bolsos por dinheiro para o ônibus e caminhou em direção ao ponto, vestindo o paletó. Duas horas mais tarde, desceu em seu ponto final, em frente ao velório da Paz. Ficou ali, parado, olhando para a porta que descascava tinta branca, revelando a madeira levemente apodrecida.
Adentrou as paredes amarelas que formavam o corredor. As salas por quais passava, transbordavam dor e angústia. Assim como ele. De certa forma, a “transbordância” dos outros fazia com que sentisse melhor. Parou. Estava em frente a uma placa que indicavaa sala G. Subiu o nó da gravata, engoliu o nó na garganta e entrou. Chorou ao ver sua mãe, pálida como nunca fora.
Vestiu o pé com meias esportivas tingidas com anilina preta, e por cima os sapatos formais que ganhara do tio. Provavelmente o veria. Pegou a gravata azul, comprada para a ocasião, e passou ao redor do pescoço.Deu um nó com perfeição e o deixou frouxo. Não gostava do nó tocando a garganta. Puxou, pelo colarinho, o paletó que antes estava cuidadosamente dobrado e saiu.
Checou os bolsos por dinheiro para o ônibus e caminhou em direção ao ponto, vestindo o paletó. Duas horas mais tarde, desceu em seu ponto final, em frente ao velório da Paz. Ficou ali, parado, olhando para a porta que descascava tinta branca, revelando a madeira levemente apodrecida.
Adentrou as paredes amarelas que formavam o corredor. As salas por quais passava, transbordavam dor e angústia. Assim como ele. De certa forma, a “transbordância” dos outros fazia com que sentisse melhor. Parou. Estava em frente a uma placa que indicavaa sala G. Subiu o nó da gravata, engoliu o nó na garganta e entrou. Chorou ao ver sua mãe, pálida como nunca fora.
segunda-feira, 29 de novembro de 2010
Alfredo.
Alfredo, o cachorro, vinha pulando em círculos de felicidade. A língua para fora que respingava saliva pelos móveis da sala, lambia qualquer parte do corpo que estivesse exposta. Alfredo adorava orelhas.
via Alfredo com o traseiro arrebitado e o rabo balançando em posição de ataque, esperando que o dono passasse o meio fio.Era botar um pe na calcada e Alfredo atacava. Lambia o rosto do dono sem excrupulos ou planejamento. O dono tirava os oculos encharcados de saliva e tentava limpar no rodape da camiseta.
Alfredo morreu. HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA nao, nao morreu.
Eu ‘e que nao consigo mais desenvolver historias.nao organizo o pensamento. Nao nada. Eu estou com saudade, eu quero ir pra minha casa e quero fugir dos meus problemas aqui e a forma mais eficiente foi matando o Alfredo.
Pronto.
ps: Amanha provavelmente eu va querer ficar aqui. Mas hoje eu estou com saudades.
via Alfredo com o traseiro arrebitado e o rabo balançando em posição de ataque, esperando que o dono passasse o meio fio.Era botar um pe na calcada e Alfredo atacava. Lambia o rosto do dono sem excrupulos ou planejamento. O dono tirava os oculos encharcados de saliva e tentava limpar no rodape da camiseta.
Alfredo morreu. HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA nao, nao morreu.
Eu ‘e que nao consigo mais desenvolver historias.nao organizo o pensamento. Nao nada. Eu estou com saudade, eu quero ir pra minha casa e quero fugir dos meus problemas aqui e a forma mais eficiente foi matando o Alfredo.
Pronto.
ps: Amanha provavelmente eu va querer ficar aqui. Mas hoje eu estou com saudades.
Assinar:
Postagens (Atom)