Era a terceira. em menos de quatro meses após o término, essa era a terceira namorada. Significava muito. Significava que os erros não eram só dela. Quem estragava três relacionamentos em menos de quatro meses, não podia ser perfeito. Ele dizia que o primeiro foi de raiva do término com ela, e o segundo nunca foi explicado, não que ele devesse explicações, afinal ela que terminara tudo quatro meses antes.
Ela já tinha dito que o término fora um erro, que tinha se arrependido, e ele disse que estava com saudades, que queria conversar. Ficou combinado que conversariam quando ela voltasse pra cidade, pelo menos foi o que ela entendeu, mas em menos de três semanas, ele já estava anunciando publicamente que tinha outra.
Ela era fiel. Era fiel a si mesma, fiel ao que sentia e o que tinha dito sobre querer conversar, querer encontrar, querer ver, tocar, beijar. Ela sempre foi honesta. Só não tinha a certeza de que ele também fora. A terceira foi a gota d'água. Quem é sincero sobre a saudade não arranja outra com tanta eficiência.
Ela tinha uma filosofia, de que se um dia fosse ficar com alguém seria por mútua vontade. Não queria ter que se esforçar incessantemente para provar que estar com ela era o suficiente. Queria alguém que soubesse disso, e que não estivesse sempre a beira de cair em tentação. No entanto, queria que ele soubesse disso. E não outro qualquer.
Não tinha mais conversa, não tinha mais nada a ser dito. Só restava a ser sentido. Arrumou suas coisas e decidiu que voltaria a cidade. Mas minutos antes de avisá-lo que estaria de volta, viu que agora existia a a terceira. Olhou na tela do computador e só conseguia ver que agora tinha mais uma. Sentiu um calor, uma raiva que se espalhava partindo do estômago. Uma raiva não dele, uma auto-depreciação. Como pudera não perceber os sinais que ele sempre emitia de que ela também era mais uma, ela fora a terceira para outra.
Ela não era especial, e tudo aquilo que ela achou que fosse só existiu na impressão. Ele era um homem, como outro qualquer, que procurava alguma qualquer, que não importava se era ela, ou as outras três. Ela fazia parte do montante.
Fazia parte do montante. Do mon-tan-te. A realização disso, fez o vidro se quebrar. A ilusão havia se partido. E por mais que aceitasse, que nada nunca fora tão especial quanto tinha acreditado, tudo que queria era que ele viesse e juntasse os cacos estilhaçados e começasse a colar. Pedaço a pedaço, transformando-os em uma obra de arte. Um picasso, que mesmo torto, e mesmo com rachaduras de tinta, se mostrava completo e pronto para ser exposto, visto e apreciado. Queria pra vida um romance modernista. Queria ser 'A boba'. Sem ser tripudiada. Queria ter um ‘homem amarelo’, com um toque de azul. Queria ser 'Guernica', porque onde existe guerra existe amor. Queria ter arte.
terça-feira, 14 de agosto de 2012
terça-feira, 7 de agosto de 2012
O vácuo
Minha irmã costuma dizer que tem medo quando eu fico muito tempo em silêncio. Ela diz que queria estar na minha cabeça, pra entender meus pensamentos. Na realidade, tem horas que nem eu queria saber o que eu estou pensando.
Me desliguei do mundo nos últimos dias, me dediquei a assistir séries, desenhar, e pensar em quantas colheres de arroz eu vou comer no almoço. Eu tento fugir de questionamentos, e fico fazendo planos pra alcançar uma meta que até agora só existe na minha cabeça.
Tenho uma lista de coisas que eu preciso fazer, e-mails que eu preciso mandar, projetos que eu preciso escrever. Mas como eu disse, há dias que eu me dedico a colher plantas de coração em um joguinho do facebook.
O fazer nada me deu tempo pra pensar em posicionamentos que eu queria ter, quilos que eu queria perder, livros que eu queria ler e a disposição que eu queria ter pra tudo isso.
Acordei me achando feia esses dias, não saí de casa pra não sujeitar ninguém a minha feiúra psicológica. Minha mãe me diz que eu sou linda, prefiro acreditar nela. Preciso fazer a sobrancelha, e tirar o meu esmalte que começou a descascar. Recusei convites pra sair com meus amigos. O único dia em que eu aceitei sair de casa eu acabei mandando mensagens bêbadas pra um amigo as três da manhã. Tirando esse dia, a única pessoa que me viu recentemente veio até a minha casa.
Quão deprimente é isso? Nem um pouco. Estou adorando me sentir a gata borralheira, e não ter que sair na rua pra não cumprimentar ninguém. Eu provavelmente vá cansar disso daqui 3 ou 4 dias, e a realidade vai bater à minha porta. Mas até lá, eu estou feliz com uma mente vazia. E posso assegurar a minha irmã que não tem nada aqui dentro digno de se sentir medo. Aliás eu posso assegurá-la que aqui dentro não tem nada. Nada mesmo.
Me desliguei do mundo nos últimos dias, me dediquei a assistir séries, desenhar, e pensar em quantas colheres de arroz eu vou comer no almoço. Eu tento fugir de questionamentos, e fico fazendo planos pra alcançar uma meta que até agora só existe na minha cabeça.
Tenho uma lista de coisas que eu preciso fazer, e-mails que eu preciso mandar, projetos que eu preciso escrever. Mas como eu disse, há dias que eu me dedico a colher plantas de coração em um joguinho do facebook.
O fazer nada me deu tempo pra pensar em posicionamentos que eu queria ter, quilos que eu queria perder, livros que eu queria ler e a disposição que eu queria ter pra tudo isso.
Acordei me achando feia esses dias, não saí de casa pra não sujeitar ninguém a minha feiúra psicológica. Minha mãe me diz que eu sou linda, prefiro acreditar nela. Preciso fazer a sobrancelha, e tirar o meu esmalte que começou a descascar. Recusei convites pra sair com meus amigos. O único dia em que eu aceitei sair de casa eu acabei mandando mensagens bêbadas pra um amigo as três da manhã. Tirando esse dia, a única pessoa que me viu recentemente veio até a minha casa.
Quão deprimente é isso? Nem um pouco. Estou adorando me sentir a gata borralheira, e não ter que sair na rua pra não cumprimentar ninguém. Eu provavelmente vá cansar disso daqui 3 ou 4 dias, e a realidade vai bater à minha porta. Mas até lá, eu estou feliz com uma mente vazia. E posso assegurar a minha irmã que não tem nada aqui dentro digno de se sentir medo. Aliás eu posso assegurá-la que aqui dentro não tem nada. Nada mesmo.
sábado, 28 de julho de 2012
Redenção
A cidade tremeluz. Os sons dos carros e do mar se unem orquestrados em perfeita sintonia. E uma estátua, de braços abertos, iluminada por holofotes, abençoa a cidade.
As nuvens, bem abaixo de nós, escondem a rotina dos moradores preparando o jantar, e por entre falhas revela a luz das janelas acesas. As pessoas conversam em diversas línguas, dialetos e gírias.
É o maior número de braços abertos por metro quadrado. Risadas flashes e sorrisos de felicidade fotográfica compõem a sacada de pedra acinzentada.
É a mistura de imagem, som e cheiro que se transformam em poesia. Poesia palpável.
O Rio é lindo.
As nuvens, bem abaixo de nós, escondem a rotina dos moradores preparando o jantar, e por entre falhas revela a luz das janelas acesas. As pessoas conversam em diversas línguas, dialetos e gírias.
É o maior número de braços abertos por metro quadrado. Risadas flashes e sorrisos de felicidade fotográfica compõem a sacada de pedra acinzentada.
É a mistura de imagem, som e cheiro que se transformam em poesia. Poesia palpável.
O Rio é lindo.
sexta-feira, 29 de junho de 2012
O céu
Colocou as mãos sob os seios enquanto encarava o teto branco repleto e estrelas de adesivos que brilham no escuro. Tentava controlar a sua respiração, já que na sua vida não controlava mais nada. Sentiu o coração bater. Era o único aspecto que se mantinha compassado. Já era alguma coisa.
O sono não vinha, o cansaço não a abandonava. O corpo doía, a mente também, afinal tirando o romance da biologia, é na cabeça que se sente as coisas.
Seus amigos avisaram: Isso não vai dar certo. Não deu. As coisas fugiram do controle, os sentimentos descarrilharam em uma cruz de Santo André. E os veículos sobre trilhos têm sempre a preferência.
Era feia? Burra? Gorda? Não sabia. As vezes ouvia elogios, e se perguntava quanto e quem teria pago para que fossem ditos. Os amigos e família a contradiziam e repetiam: O problema não é você, é um idiota, ele não te merece. Mas eles eram amigos e familiares, a função deles era achá-la ótima.
Uma das próximas até desenvolveu uma teoria: Você sabe onde está, de onde veio e pra onde vai, isso inibe as pessoas. Era uma boa teoria, mas ela não sabia como mudar essa postura porque realmente sabia, ou achava que sabia essas três coisas.
A taróloga há muito tempo disse que o amor de sua vida ainda iria aparecer, e seria ar-re-ba-ta-dor. Cadê? Falou até em casar na igreja de véu e grinalda. Eu? A Idea até encantou, mas NE sinal. Tarólogos sempre erram. Essa até tinha acertado algumas coisas... pensamentos íntimos que ela nunca disse a ninguém.
Começou a contar as estrelas de plástico no ritmo das batidas. Não sabia se o coração estava acelerado ou se ele era sempre nesse ritmo e ela não tinha percebido. Pelo menos estava viva. Sentimentos não matam. Não literalmente, metaforicamente é outra história.
Vai passar. Esse projeto de profecia foi unânime. Vai? Quando? Não conseguia dormir, precisava escrever. Se levantou da cama em um pulo, vestiu pijamas, ela dorme pelada, subiu os degraus de madeira até o escritório, pegou um sulfite A4, 90 gramas, uma caneta bic e começou:
“Colocou as mãos sob os seios enquanto encarava o teto branco repleto e estrelas de adesivos que brilham no escuro.”
O sono não vinha, o cansaço não a abandonava. O corpo doía, a mente também, afinal tirando o romance da biologia, é na cabeça que se sente as coisas.
Seus amigos avisaram: Isso não vai dar certo. Não deu. As coisas fugiram do controle, os sentimentos descarrilharam em uma cruz de Santo André. E os veículos sobre trilhos têm sempre a preferência.
Era feia? Burra? Gorda? Não sabia. As vezes ouvia elogios, e se perguntava quanto e quem teria pago para que fossem ditos. Os amigos e família a contradiziam e repetiam: O problema não é você, é um idiota, ele não te merece. Mas eles eram amigos e familiares, a função deles era achá-la ótima.
Uma das próximas até desenvolveu uma teoria: Você sabe onde está, de onde veio e pra onde vai, isso inibe as pessoas. Era uma boa teoria, mas ela não sabia como mudar essa postura porque realmente sabia, ou achava que sabia essas três coisas.
A taróloga há muito tempo disse que o amor de sua vida ainda iria aparecer, e seria ar-re-ba-ta-dor. Cadê? Falou até em casar na igreja de véu e grinalda. Eu? A Idea até encantou, mas NE sinal. Tarólogos sempre erram. Essa até tinha acertado algumas coisas... pensamentos íntimos que ela nunca disse a ninguém.
Começou a contar as estrelas de plástico no ritmo das batidas. Não sabia se o coração estava acelerado ou se ele era sempre nesse ritmo e ela não tinha percebido. Pelo menos estava viva. Sentimentos não matam. Não literalmente, metaforicamente é outra história.
Vai passar. Esse projeto de profecia foi unânime. Vai? Quando? Não conseguia dormir, precisava escrever. Se levantou da cama em um pulo, vestiu pijamas, ela dorme pelada, subiu os degraus de madeira até o escritório, pegou um sulfite A4, 90 gramas, uma caneta bic e começou:
“Colocou as mãos sob os seios enquanto encarava o teto branco repleto e estrelas de adesivos que brilham no escuro.”
segunda-feira, 25 de junho de 2012
Independência ou morte
Estava conversando com o meu pai, sobre mais um dos meus questionamentos, e disse: Eu nasci na geração errada, pus me a explicar o porque.
Nós, nascidos pelos arredores dos anos noventa, fomos criados para sermos independentes. Fazemos parte de uma geração de auto-suficientes, que tem à mão todos os tipos de aparelhos e informações. Temos autonomia, temos velocidade, somos uma geração drive-thru, geração de pronta entrega.
Temos carros pré-moldados, e opiniões também.
Somos os pós-reacionários, temos a rebeldia e não achamos a causa. Temos a internet e movimentações políticas cibernéticas. Somos protestantes sentados.
Ganhamos tudo pronto, com manual de instrução em linguagem simplificada. Vivemos de atalhos e Ctrl+C, Ctrl+V. Temos nossos carros parcelados em 48 vezes, computadores em um celular, temos tudo de mão beijada pela eficiência.
Somos a geração do foda-se, do relaxa que depois da certo. A geração dos acomodados que não perdem nada. E, vivemos em uma sociedade em que inteligentes são aqueles que ganham sem esforço, onde o dinheiro vale mais do que o trabalho.
Temos tudo, temos rápido e temos agora.
Não só no material, somos expressos em nossos relacionamentos, aprendemos que quando algo quebra é preciso jogar fora. Inclusive nossos amores.
Somos a geração micareta, a geração não lembro se eu beijei. Nada mais nos prende, nem dinheiro, nem casamento, nem necessidade. Temos tudo ali, e no entanto não temos nada.
Nossos namoros duram quinze dias, as vezes eles nem acontecem. Nossas amizades duram o período letivo, somente a festa dura pra sempre.
Falei por horas sobre isso, sobre essa geração que jogava cobrinha escondido no celular da mãe. Sobre nós que vimos a tela do celular ganhar cor e virar touch, e ele me disse:
- Filha, você está errada. Nessa geração de independência, uma coisa nos prende, e só ela, porque o resto nós conseguimos sozinhos. Sabe o que é?
- Não pai, não sei.
- É a palavra que você tanto evita porque pensa que é clichê.
-O amor?
- É, o amor. Na sua geração, você sabe que quando suas amizades durarem anos, existe amor, quando seu relacionamento perdurar, existe amor, quando alguns objetos forem guardados pela história ou por carinho, existe amor. Filha, vocês serão os primeiros a viver juntos por essência. Os primeiros a se casarem por amor, não por tradição, nem por obrigação ou circunstância.
Parei de transcrever a minha história aqui. Passei três dias relendo o que tinha escrito, e tentando acreditar nas palavras do meu pai. Estou tentando me convencer até agora. Meu pai tem 50 anos, eu tenho 19, ele provavelmente entende mais da vida do que eu. Ele deve ter razão. Eu queria que ele tivesse. Pra saber que em meio a tantas desventuras ainda existe algo. Qualquer algo que não seja só vazio, algo que signifique e que preencha. Um motivo pra tudo isso. Vou esperar 30anos, depois eu analiso.
Nós, nascidos pelos arredores dos anos noventa, fomos criados para sermos independentes. Fazemos parte de uma geração de auto-suficientes, que tem à mão todos os tipos de aparelhos e informações. Temos autonomia, temos velocidade, somos uma geração drive-thru, geração de pronta entrega.
Temos carros pré-moldados, e opiniões também.
Somos os pós-reacionários, temos a rebeldia e não achamos a causa. Temos a internet e movimentações políticas cibernéticas. Somos protestantes sentados.
Ganhamos tudo pronto, com manual de instrução em linguagem simplificada. Vivemos de atalhos e Ctrl+C, Ctrl+V. Temos nossos carros parcelados em 48 vezes, computadores em um celular, temos tudo de mão beijada pela eficiência.
Somos a geração do foda-se, do relaxa que depois da certo. A geração dos acomodados que não perdem nada. E, vivemos em uma sociedade em que inteligentes são aqueles que ganham sem esforço, onde o dinheiro vale mais do que o trabalho.
Temos tudo, temos rápido e temos agora.
Não só no material, somos expressos em nossos relacionamentos, aprendemos que quando algo quebra é preciso jogar fora. Inclusive nossos amores.
Somos a geração micareta, a geração não lembro se eu beijei. Nada mais nos prende, nem dinheiro, nem casamento, nem necessidade. Temos tudo ali, e no entanto não temos nada.
Nossos namoros duram quinze dias, as vezes eles nem acontecem. Nossas amizades duram o período letivo, somente a festa dura pra sempre.
Falei por horas sobre isso, sobre essa geração que jogava cobrinha escondido no celular da mãe. Sobre nós que vimos a tela do celular ganhar cor e virar touch, e ele me disse:
- Filha, você está errada. Nessa geração de independência, uma coisa nos prende, e só ela, porque o resto nós conseguimos sozinhos. Sabe o que é?
- Não pai, não sei.
- É a palavra que você tanto evita porque pensa que é clichê.
-O amor?
- É, o amor. Na sua geração, você sabe que quando suas amizades durarem anos, existe amor, quando seu relacionamento perdurar, existe amor, quando alguns objetos forem guardados pela história ou por carinho, existe amor. Filha, vocês serão os primeiros a viver juntos por essência. Os primeiros a se casarem por amor, não por tradição, nem por obrigação ou circunstância.
Parei de transcrever a minha história aqui. Passei três dias relendo o que tinha escrito, e tentando acreditar nas palavras do meu pai. Estou tentando me convencer até agora. Meu pai tem 50 anos, eu tenho 19, ele provavelmente entende mais da vida do que eu. Ele deve ter razão. Eu queria que ele tivesse. Pra saber que em meio a tantas desventuras ainda existe algo. Qualquer algo que não seja só vazio, algo que signifique e que preencha. Um motivo pra tudo isso. Vou esperar 30anos, depois eu analiso.
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