Quer ler o que?

sábado, 28 de novembro de 2009

37

- Gregório... presta a atenção... a gente precisa conversar. Senta. Olha, ahn, é uma coisa bem difícil de dizer, mas eu vou.

É o seguinte, a nossa relação, o nosso namoro, não nossa amizade, eu adoro conversar com você e rir com você, voce é um cara muito engraçado e inteligente, mas o nosso namoro, se é que a gente pode chamar essa relação de namoro, tá passando por uma fase meio conturbada pra mim. Tá ficando meio sério, a gente já conhece os amigos uns dos outros e jajá eu vou conhecer a sua família e voce a minha, e eu não sei se eu to pronta. Entende?

Eu to meio confusa, e eu até acho injusto falar isso pra você, porque eu sei que voce é um cara muito legal e tal...

Não é nada contra você, eu até gosto de você, mas eu acho que tá ficando íntimo demais. Eu não lido bem com intimidade demais, eu preciso do meu espaço.

Não é pra ficar bravo comigo, ou chateado. Eu quero que a gente continue amigo quando essa conversa acabar. Eu queria que a relação continuasse do jeito que tá, mas como dizia Parmênides, as coisas estão em constante movimento, e eu sei que não dá pra estatizar a relação.

Eu sei que se a gente continuar com esse namoro a gente vai deixar as coisas mais sérias, então eu tava pensando e cheguei a conclusão que talvez seja melhor a gente terminar.

Mas olha, eu quero que a gente continue amigo que nem sempre, e quero que voce saiba que voce ainda vai encontrar alguém que te valorize mais do que eu, e que esteja pronta pra uma relação dessas.

Você é um cara muito legal, eu me diverti muito, e eu gosto muito de você, mas eu acho que não dá mais.

Não fica chateado, por favor, não fica.

É que eu acho que talvez você esteja levando isso mais a sério do que eu, que voce esteja gostando mais de mim do que eu de você.

Meu deus como é difícil dizer isso. Não é bem terminar porque a gente não tinha nada oficial, é um afastamento. E a gente ainda vai conversar normal.

Fala alguma coisa.

O que você acha?

- Tá.

- Oi?

- Tá.

- Gregório, eu não quero que você fique chateado, tudo bem?

- Não estou.

- Tem certeza? nem um pouquinho? Pode falar se estiver.

- Não, tá tudo bem.

- Mesmo?

- Mesmo.

- Então acho que a gente se vê?

- Quem sabe.

Ela ligou pra ele 12 vezes durante a tarde, 23 durante a madrugada, e 2 na manhã seguinte. Mas, dessa vez, ele não estava pronto.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Na gaveta.

Ela escreveu um texto que resumia em palavras toda a dor que ela sentia, um texto sincero, sem rodeios, que explicitava todos os pensamentos, as frustrações, e as mágoas que ela sentia com relação à família, vida e amigos.
Ela não publicou. Com medo que as pessoas se machucassem com a sinceridade demais.

domingo, 8 de novembro de 2009

Falência hepática

- Oi amor! Como voce tá?

- Com pressa. Me segue que a gente vai atualizando.

- Ok, o que aconteceu com voce?

- To acabada.

- Porque?

- Fui a um enterro hoje.

- Nossa, que merda.

- Pois é. Uma merda. Parece que quem morreu fui eu.

- A energia desses lugares é péssima, né?

- Super.

- Morreu porque?

- Torceu o pé.

- Anda mais devagar. Como assim morreu porque torceu o pé?

- Assim ué, torceu o pé foi pro hospital e morreu.

- Mas torceu quanto? Fratura exposta e hemorragia?

- Não, torceu o pé e foi pro hospital, quando passaram Gelol descobriram que o cara era alérgico e empipocou tudo.

- Alergia mata?

- Mata. Mas ele não morreu disso.

- Morreu do que?

- Deixa eu terminar a história.

- Ta. Anda mais devagar se não eu não acompanho a história e o passo.

- To com pressa, mesmo.

- Ta, eu dou uma corridinha, minhas pernas são mais curtas que as suas.

- Só uns centímetros.

- Não quero falar sobre isso. Continua.

- Então ai a alergia atacou o fígado, que já não era muito bom porque ele bebia um pouco.

- Morreu de falência hepática?

- Não. É que junto com o fígado começou a falhar uns outros órgãos.

- Falência múltipla de órgãos?

- Não. E olha que ele tinha uns problemas no coração, mas não.

- Nossa, problema no coração porque?

- A idade eu acho.

- Quantos anos ele tinha?

- 83.

- é...

- Então ai, o corpo ficou fraco e o cara pegou uma gripe.

- Dentro do hospital?

- Pois é.

- Que irônico, né?

- Super.

- Então morreu de gripe?

- Não, ele estava melhorando, ai decidiram contar que a neta tava grávida.

- Morreu porque a neta tava grávida?

- Lógico que não.Ele não podia sofrer emoções fortes. E ele enfartou.

- Nossa, que horror.

- O que?

- Morrer por uma notícia que era pra deixar ele melhor.

- Quem disse que ele morreu?

- Ué, você não foi no enterro?

- Fui, mas ele não morreu por isso.

- Pelo enfarte?

- É, ele sobreviveu.

- Nossa. Pra onde você ta indo?

- Entregar essas pastas. Esse salto ta me matando.

- Você não devia trabalhar de salto. Continua.

- Então decidiram colocar um marca passo.

- Coitado, morreu na cirurgia?

- Não, não precisou fazer.

- Porque?

- Morreu antes.

- Arritmia?

- Não, traumatismo craniano.

- Problema cardíaco causa traumatismo?

- Acho que não.

- Então...?

- Antes da cirurgia ele foi ao banheiro.

- Qual a relevância?

- Quando ele foi ao banheiro morreu.

- Ainda não entendi como.

- Pra chegar ao banheiro tem uma escada, ele caiu da escada.

- Bateu a cabeça e morreu?

- Exato.

- AI!

- Que foi?

- Torci meu pé.

- Nossa, ta feio mesmo.

- Ta doendo. Leva essas pastas pra mim na sala da Cláudia.

- Levo.

- Rápido!

- Ok, não quer que eu te leve no hospital?

- Não, obrigada.

- É melhor, ai eles fazem uns exames e passam alguma coisa nesse pé.

- Não, já to boa.

- Você tá pulando num pé só.

- Vamo, eles examinam bonitinho.

- Mas e o enterro?

- Esquece o enterro, vamos e eles passam alguma coisa.

- Promete que não vai ser Gelol?

PS: Primeiro o Bonaldi, agora o Tyler. O que será das minhas quintas a noite?
Boa sorte internacional pra vocês. Escritores exilados. E saibam que esse forno de cidade é mais legal. Muito mais legal.
Ou não.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Flores.

Parou em frente a casa, única no quarteirão, e desligou o carro. A casa era revestida de plantas, folhas verdes brotando do chão até as telhas. Atravessou a rua e tocou a campainha.

Uma senhora apareceu na janela e, por entre as plantas, viu o homem de terno preto e uma pasta na mão.

Abriu a porta da casa e saiu em passos miúdos em direção ao portão carregando um molho de chaves. Foi testando uma a uma no cadeado do portão. O homem era alto, gordo e tinha um queixo protuberante. Convidou-o a entrar com um gesto, e o seguiu até a sala de estar.

Apontou para o sofá e sorriu assentindo a cabeça. Sumiu por uns minutos, voltou com uma bandeja, uma chaleira e duas xícaras.

- Chá?

- Aceito, obrigado.

Com as mãos tremulas, serviu as duas xícaras e se sentou.

Ficaram durante todo o chá em silêncio.

A senhora, de olhos fechados, respirava o vapor em busca do aroma. Passaram-se 15 minutos de silêncio.

- A senhora deve ser a Dona Alva.

Ela assentiu.

- Meu nome é Estevão. Estevão Jordão. Eu sou corretor... – Ele interrompeu.

Ela tinha levantado a mão em pedido de silêncio.

- Sei do que se trata.

- Nós podemos pagar o dobro do valor da casa.

- Não estou interessada.

- Posso falar com o meu chefe, podemos negociar.

- Não, obrigada.

- Um preço bom.

- Não.

- Dona Alva, esse é um bairro perigoso para uma residência.

- Prefiro correr os riscos.

- O centro está longe, não existe mais vizinhança.

- Não quero que a minha casa morra.

- Desculpe?

- Não quero que a minha casa morra.

- Quantos anos a senhora tem, Dona Alva?

- O suficiente.

- Deixa eu te explicar, Dona Alva. Sua casa não vai morrer. Não tem como morrer. Uma casa é um objeto. Objetos não morrem.

- Uma casa morre quando se varrem as lembranças.

- Dona Alva, tire umas fotos, registre suas memórias, e guarde todas em um álbum. Não em uma casa. A senhora mora sozinha. É perigoso uma senhora da sua idade viver sozinha. A empresa pode pagar uma casa de retiro para a senhora. Lá você vai estar sob cuidados.

Dona Alva se levantou e caminhou até a estante onde guardava porta retratos.

- Não, obrigada.

- Sejamos razoáveis Dona Alva, a senhora não tem mais condição de viver sozinha.

A senhora se virou para a direção do corretor respirando fundo e marejando os olhos. Começou a falar lenta e pausadamente.

- Eu me casei, cuidei do meu marido até o dia 22 de abril. A partir daí, criei dois filhos por minha conta. Eu sei como viver sozinha nessa casa. Não estou interessada.

- A senhora podia ir morar com um dos seus filhos.

- Não posso.

- Eles estão desempregados? Podemos oferecer emprego na nossa empresa.

- Morreram.

- Dona Alva, perdão pela indelicadeza, mas a morte é inevitável , talvez seja essa a hora da senhora se desapegar dos bens materiais e aceitar o curso natural da vida. Eu por exemplo perdi uma namorada, mas segui em frente.

- O senhor já perdeu dois filhos senhor Estevão?

- Não.

- Não tente se colocar no meu lugar e eu não vou tentar me colocar no seu. Não estou interessada.

A senhora saiu a passos curtos em direção à cozinha levando a bandeja, a chaleira e as xícaras.

O corretor começou a andar pela casa observando as fotos e as plantas que forravam as paredes. A casa tinha paredes quentes, revestidas por folhas verdes e flores coloridas. No quintal e na sala de estar só se viam flores.

Ele se aproximou de uma bromélia que brilhava e a tocou. Saiu por todo o aposento passando os dedos nas flores e folhas freneticamente.

Parou quando viu o reflexo de Dona Alva na cristaleira.

- Dona Alva, posso fazer uma pergunta?

Ela assentiu.

- Porque a senhora tem tantas flores como essas?

- Senhor Estevão, essas flores te acompanham. Não importa o que aconteça, chuva ou sol, elas te acompanham.

- Não é natural.

- A ilusão é o preço que se paga pela esperança de estarmos acompanhados.

- Não é real Dona Alva.

- Compensa.

- Mas são de plástico!

- Senhor Estevão, as flores de plástico não morrem.

Sim, Titãs.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Hércules

- To indo. Você viu meu casaco preto?

- Na tua frente.

- Ahn.

- ...

- Sabe o que eu tava pensando?

- Sei.

- Sabe?

- Não.

- Quer saber?

- Não.

- Tava pensando que seria super legal se eu casasse com um Adão.

- Você não é católica.

- Mas soa profético.

- Nossa.

- Sério. Podia ter um letreiro luminoso atrás do padre escrito: "Adão e Eva, mean to be".

- Que cafona.

- O letreiro?

- Também.

- O inglês?

- No Brasil é cafona. Escreve um "Era pra ser" que fica menos cafona.

- Ao não ser que eu case nos Estados Unidos.

- É.

- Ah.. Mas ai não vai chamar Adão..

- Por?

- Vai chamar Adam.

- Nossa. Você não tava indo?

- Tava...

- Beijos.

- Podia ter maçã de lembrancinha!

- Podia

- Maçã do amor! Uma árvore de maçã do amor!

- Beijos.

- O prato principal podia ser costela.

- Teoricamente isso seria canibalismo.

- Será que eles eram canibais?

- Quem?

- Adão e Eva.

- Nem que eles quisessem.

- Porque?

- Eles eram os únicos humanos do paraíso.

- Eles tiveram filhos, eles podiam comer os filhos.

- Baby beef.

- Ai que horror.

- Quem comia os filhos eram os titãs

- A banda?

- Não! O pai e os tios de Zeus.

- Pai do Hércules?

- É.

- O Adão podia ser forte que nem ele.

- Que nem o Zeus?

- Pensei no Hércules. Porque Zeus tem cauda de peixe.

- Quem tem cauda de peixe é o Tritão, pai da Ariel.

- Ah é.

- E o Hércules tem a canela muito fina.

- Meu vestido podia ser de folhas.

- Oi?

- O vestido de casamento.

- Com o Hércules?

- Que não vai chamar Hércules.

- Vai chamar Adão.

- Não. Adam.

- Ah é, o letreiro. Resumindo, tem que ser forte que nem o Hércules, ter canela grossa, ser americano, chamar Adam, não pode ser canibal, tem que gostar de costela e de maçã do amor?

- Isso.

- ...

- ...

- Eva..?

- Oi?

- Voce tem consciência de que você vai morrer solteira?