- Eu acho que ela exagerou
- Eu não.
- Você é amiga de quem? Minha ou dela?
- Desculpa, Bárbara, mas eu teria feito pior.
- Mas precisava bater no rosto?
- Você devia ter considerado essa possibilidade.
- Como eu vou trabalhar amanhã?
- Acho que se passar uma base, dá pra disfarçar.
- Meu rosto tá inchado, roxo e flácido.
- Pensa pelo lado positivo, é só do lado direito.
- E disforme!
- A gente põe um gelo hoje e capricha na maquiagem amanhã.
- Acho que eu vou falar que estou com gripe.
- E o vírus saiu de você e te encheu de porrada?
- Não tá ajudando.
- To sendo realista. Mantenha o fato, mude a causa.
- Como assim?
- Sei lá, fala que foi assaltada.
- E o ladrão levou minha bolsa e meu olho direito?
- Ele bateu em você pra conseguir roubar a bolsa.
- Eu podia acusar o Paulo e usar a Lei Maria da Penha.
- Que Paulo?
- Meu ex.
- Isso é patético.
- Não consigo ver meu olho!
- Ficar olhando no espelho não ajuda.
- ...
- Bárbara... Você tá chorando?
- Não, meu olho não parou de lacrimejar desde que ela me bateu.
- Ahn.
- Ainda acho que ela não exagerou.
- Achei que ela quereria saber.
- Ela é casada com ele há 12 anos. Ela provavelmente já sabia.
- As vezes, ela não tem conhecimento de causa.
- Que?
- As vezes ela não sabe que ele é ruim porque ela só namorou ele a vida inteira.
- Na verdade, isso até faz sentido.
- Viu!
- Mas você ainda não tem nada a ver com isso.
- Eu fui ser uma boa amiga alertando ela.
- Você não desiste!
- Do que?
- De provar que você tá certa.
- Não é isso, eu to tentando analisar dos dois lados.
- Na boa?
- ...
- Não.
- Talvez tenha sido meio inapropriado, mas ela exagerou.
- Meio inapropriado!?
- Muito inapropriado.
- Você tá me cansando.
- Porquê?
- Você tem noção do que você disse?
- Mais uma vez: você é amiga de quem? Minha ou dela?
- Pelo amor de deus Bárbara!Você disse que semana passada achou o marido dela ruim de cama!
segunda-feira, 18 de janeiro de 2010
sexta-feira, 15 de janeiro de 2010
Primeira semana
Não era dor e definitivamente não era prazer. Não era medo, não era vontade de voltar, não era frio nem quente, era novo. Era vazio. Era cheio, leve. Não era desespero, não era insensatez. Não era palpável, não era visual. Não era literal. Era cortante, confortante. Era Saudade.
domingo, 3 de janeiro de 2010
Inflada com ar
Parada, de olhos vendados, em frente a um precipício. Uma fita verde lhe cobrindo os olhos. Verde cor de folha, cor de vida.
Os pés imóveis e o precipício se aproximando dos dedos tamborilantes. Ela ia cair. O precipício caminhava na velocidade do tempo, das horas.
Inflada com ar. Cheia de nada, mas ainda assim cheia. Cheia de dores que não tem nome. De amores que não vão ser. Cheia de futuro renegado, de futuro sem prospecto. Cheia de penumbra, de vultos e desfoque. Como uma bexiga de gás hélio que flutua até estourar pela pressão. Ela ia cair.
Imóvel, a espera da chegada do vazio ao seus pés. Via verde. Via branco, via nada além de um centímetro a sua frente.
Tinha uma excitação pueril. Tinha uma hesitação pueril. O abismo estava à cinco de seus pés. Em vinte e quatro estaria à quatro. Em noventa e seis estaria à um. Ela ia embarcar.
Os pés imóveis e o precipício se aproximando dos dedos tamborilantes. Ela ia cair. O precipício caminhava na velocidade do tempo, das horas.
Inflada com ar. Cheia de nada, mas ainda assim cheia. Cheia de dores que não tem nome. De amores que não vão ser. Cheia de futuro renegado, de futuro sem prospecto. Cheia de penumbra, de vultos e desfoque. Como uma bexiga de gás hélio que flutua até estourar pela pressão. Ela ia cair.
Imóvel, a espera da chegada do vazio ao seus pés. Via verde. Via branco, via nada além de um centímetro a sua frente.
Tinha uma excitação pueril. Tinha uma hesitação pueril. O abismo estava à cinco de seus pés. Em vinte e quatro estaria à quatro. Em noventa e seis estaria à um. Ela ia embarcar.
domingo, 27 de dezembro de 2009
Vinte e quatro de dezembro
Um pinheiro decorado com luzinhas de natal e bolas brancas enfeitava o canto de uma sala retangular pronta para receber cerca de 20 pessoas. O sol já tinha se posto, a temperatura ainda era de 32 graus e a árvore exibia pequenos Papai Noéis com gorros vermelhos prontos para esquiar.
A casa era da avó, que desgostava das noras pelo simples fato de elas serem casadas com os filhos, que se desgostavam entre si pelo simples fato da falta de convivência. Um morava no Rio, o outro morava no litoral sul, e o outro morava na mesma cidade, num apartamento que a mãe achava perigoso demais.
Às oito chegaram os primos que exibiam sorrisos falsos e comemorativos. Não se davam bem com os tios por problemas de negócios. Família, família, negócios a parte.
Às oito e vinte chegou o avô, ex-marido da avó, separados por traição. O avô teve um caso com a tia-avó por 26 anos. Caso que foi esgoelado, num almoço de domingo, pela tia-avó depois de três garrafas e meia de vinho e duas doses de uísque.
A tia-avó chegou as quinze para as nove trazendo uma farofa com pimenta demais, e logo atrás chegaram os filhos e suas respectivas esposas junto com seus respectivos filhos. Cinco primos ao todo. A diferença de idade e o ego não ajudavam. Um era velho demais, o outro era novo demais e o outro era burro demais.
Eram dez horas quando a avó começou a chamar todos para se juntarem à mesa. Eram dez e vinte quando ela conseguiu. Sentaram-se na sala retangular preparados para jantar. O neto mais velho serviu o prato até as bordas e se sentou ao lado do pai. Ambos comiam com a mão direita e colocavam o braço esquerdo na frente do prato, funcionando como uma muralha.
A avó engasgou com o excesso de pimenta na farofa, o avô tentava flertar com uma das noras enquanto lambia os dedos sujos de frango. Os primos comiam mastigando de boca aberta, lembrando uma centrífuga.
Quase ninguém levou o prato até a pia. Os que levaram, colocaram um sobre o outro sujando o fundo do prato de cima com os restos do jantar.
As onze e meia todos já estavam trocando os presentes comprados por obrigação. À meia-noite, ninguém percebeu. À meia-noite e quinze, todos se cumprimentaram e foram chamados pela avó até a varanda.
Posicionaram uma câmera no capô da Mercedes do irmão mais velho, todos sorriram para a foto. À meia-noite e meia, foram embora.
A casa era da avó, que desgostava das noras pelo simples fato de elas serem casadas com os filhos, que se desgostavam entre si pelo simples fato da falta de convivência. Um morava no Rio, o outro morava no litoral sul, e o outro morava na mesma cidade, num apartamento que a mãe achava perigoso demais.
Às oito chegaram os primos que exibiam sorrisos falsos e comemorativos. Não se davam bem com os tios por problemas de negócios. Família, família, negócios a parte.
Às oito e vinte chegou o avô, ex-marido da avó, separados por traição. O avô teve um caso com a tia-avó por 26 anos. Caso que foi esgoelado, num almoço de domingo, pela tia-avó depois de três garrafas e meia de vinho e duas doses de uísque.
A tia-avó chegou as quinze para as nove trazendo uma farofa com pimenta demais, e logo atrás chegaram os filhos e suas respectivas esposas junto com seus respectivos filhos. Cinco primos ao todo. A diferença de idade e o ego não ajudavam. Um era velho demais, o outro era novo demais e o outro era burro demais.
Eram dez horas quando a avó começou a chamar todos para se juntarem à mesa. Eram dez e vinte quando ela conseguiu. Sentaram-se na sala retangular preparados para jantar. O neto mais velho serviu o prato até as bordas e se sentou ao lado do pai. Ambos comiam com a mão direita e colocavam o braço esquerdo na frente do prato, funcionando como uma muralha.
A avó engasgou com o excesso de pimenta na farofa, o avô tentava flertar com uma das noras enquanto lambia os dedos sujos de frango. Os primos comiam mastigando de boca aberta, lembrando uma centrífuga.
Quase ninguém levou o prato até a pia. Os que levaram, colocaram um sobre o outro sujando o fundo do prato de cima com os restos do jantar.
As onze e meia todos já estavam trocando os presentes comprados por obrigação. À meia-noite, ninguém percebeu. À meia-noite e quinze, todos se cumprimentaram e foram chamados pela avó até a varanda.
Posicionaram uma câmera no capô da Mercedes do irmão mais velho, todos sorriram para a foto. À meia-noite e meia, foram embora.
quarta-feira, 23 de dezembro de 2009
Marla
- Ahn.. alo?
- Oi! Te acodei!? Te acordei!?
- Ahhn... não... pode falar.
- Acordei né?
- Aham, mas pode falar.
-Eu sei que são três horas da manhã, mas eles nasceram!
- Os gêmeos da Marina? Ela não tava de sete meses? Quanto tempo eu dormi?
- Não, não os gêmeos da marina!
- Ah.. Ufa. Não?
- Não.
- Quem nasceram?
- Os filhos da Maria!
- A Maria do Claudinho tava grávida? Eu achei que ela fosse só gorda...
- Acho que não...
- Então filha de qual Maria que nasceu?
- Os filhotes da Maria!
- Que Maria?
- A minha gata Maria.
- Oi?
- A Maria, minha gata branca?
- Sei.
- Tava grávida, e os filhotes nasceram.
- Você não me disse que a Maria tava grávida.
- Eu não sabia..
- Oi?
- Achei que ela tava gorda.
- Que nem a Maria do Claudinho.
- Até comecei a comprar ração light.
- Ração light?
- Sim, de pouca caloria, ajuda a diminuir o colesterol e tem sabor salmão.
- Pra gato?
- É.
-Funciona?
- Aham.
- É caro?
- Não muito, porque?
- Meu colesterol ta meio alto.
- Cala a boca.
- Rude.
- Me diz o que eu faço com os gatos.
- Quantos são?
- Sete.
- E você achou que ela tava só gorda!?
- Parecia.
- Você devia ganhar um prêmio.
- Pelo que?
- Pela desatenção.
- Ahn, foi você que trancou a Marla no hall.
- Marla é uma cachorra muito silenciosa, eu não vi que ela tava pra fora do apartamento.
- A coitada passou a noite fora. Tadinha.
- Vamos voltar a falar da Maria?
- Eu não aguento mais os miados.
- Vende.
- Quer comprar um gatinho?
- Só se for de ração pra Marla.
- Ai que horror.
- Ela precisa de proteína!
- Oi?
- Ela tá com deficiência de proteína.
- Além de trancar a pobre pra fora, deixar a cachorra sem proteína, ainda quer resolver com filhotinho da Maria.
- As vezes a gente pode comer gato e nem perceber. Filé Miau.
- Cala a boca.
- Rude. Foca no problema dos sete gatinhos.
- Parece o texto do Nelson Rodrigues.
- Pensei em um final menos trágico.
- Adoro o Nelson.
- Que Nelson?
- O Rodrigues, ué.
- Nossa acho que ainda to com sono.
- ...
- Você podia entregar os gatinhos pra doação.
- Eles não tem raça, e são particularmente feios.
- É porque eles acabaram de nascer, ué.
- Vou esperar um pouco até eles desmamarem e mandar pra doação.
- Como quiser.
- Boa noite.
- Beijos.
- Alô?
- Oi!
- E ai, conseguiu doar os gatinhos?
- Não... To começando a enlouquecer.
- O miado?
- É... queria te fazer uma pergunta.
- Pois não.
- Quanto de proteína a Marla precisa??
- Oi! Te acodei!? Te acordei!?
- Ahhn... não... pode falar.
- Acordei né?
- Aham, mas pode falar.
-Eu sei que são três horas da manhã, mas eles nasceram!
- Os gêmeos da Marina? Ela não tava de sete meses? Quanto tempo eu dormi?
- Não, não os gêmeos da marina!
- Ah.. Ufa. Não?
- Não.
- Quem nasceram?
- Os filhos da Maria!
- A Maria do Claudinho tava grávida? Eu achei que ela fosse só gorda...
- Acho que não...
- Então filha de qual Maria que nasceu?
- Os filhotes da Maria!
- Que Maria?
- A minha gata Maria.
- Oi?
- A Maria, minha gata branca?
- Sei.
- Tava grávida, e os filhotes nasceram.
- Você não me disse que a Maria tava grávida.
- Eu não sabia..
- Oi?
- Achei que ela tava gorda.
- Que nem a Maria do Claudinho.
- Até comecei a comprar ração light.
- Ração light?
- Sim, de pouca caloria, ajuda a diminuir o colesterol e tem sabor salmão.
- Pra gato?
- É.
-Funciona?
- Aham.
- É caro?
- Não muito, porque?
- Meu colesterol ta meio alto.
- Cala a boca.
- Rude.
- Me diz o que eu faço com os gatos.
- Quantos são?
- Sete.
- E você achou que ela tava só gorda!?
- Parecia.
- Você devia ganhar um prêmio.
- Pelo que?
- Pela desatenção.
- Ahn, foi você que trancou a Marla no hall.
- Marla é uma cachorra muito silenciosa, eu não vi que ela tava pra fora do apartamento.
- A coitada passou a noite fora. Tadinha.
- Vamos voltar a falar da Maria?
- Eu não aguento mais os miados.
- Vende.
- Quer comprar um gatinho?
- Só se for de ração pra Marla.
- Ai que horror.
- Ela precisa de proteína!
- Oi?
- Ela tá com deficiência de proteína.
- Além de trancar a pobre pra fora, deixar a cachorra sem proteína, ainda quer resolver com filhotinho da Maria.
- As vezes a gente pode comer gato e nem perceber. Filé Miau.
- Cala a boca.
- Rude. Foca no problema dos sete gatinhos.
- Parece o texto do Nelson Rodrigues.
- Pensei em um final menos trágico.
- Adoro o Nelson.
- Que Nelson?
- O Rodrigues, ué.
- Nossa acho que ainda to com sono.
- ...
- Você podia entregar os gatinhos pra doação.
- Eles não tem raça, e são particularmente feios.
- É porque eles acabaram de nascer, ué.
- Vou esperar um pouco até eles desmamarem e mandar pra doação.
- Como quiser.
- Boa noite.
- Beijos.
- Alô?
- Oi!
- E ai, conseguiu doar os gatinhos?
- Não... To começando a enlouquecer.
- O miado?
- É... queria te fazer uma pergunta.
- Pois não.
- Quanto de proteína a Marla precisa??
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