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sábado, 28 de julho de 2012

Redenção

A cidade tremeluz. Os sons dos carros e do mar se unem orquestrados em perfeita sintonia. E uma estátua, de braços abertos, iluminada por holofotes, abençoa a cidade.

As nuvens, bem abaixo de nós, escondem a rotina dos moradores preparando o jantar, e por entre falhas revela a luz das janelas acesas. As pessoas conversam em diversas línguas, dialetos e gírias.

É o maior número de braços abertos por metro quadrado. Risadas flashes e sorrisos de felicidade fotográfica compõem a sacada de pedra acinzentada.

É a mistura de imagem, som e cheiro que se transformam em poesia. Poesia palpável.

O Rio é lindo.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

O céu

Colocou as mãos sob os seios enquanto encarava o teto branco repleto e estrelas de adesivos que brilham no escuro. Tentava controlar a sua respiração, já que na sua vida não controlava mais nada. Sentiu o coração bater. Era o único aspecto que se mantinha compassado. Já era alguma coisa.

O sono não vinha, o cansaço não a abandonava. O corpo doía, a mente também, afinal tirando o romance da biologia, é na cabeça que se sente as coisas.

Seus amigos avisaram: Isso não vai dar certo. Não deu. As coisas fugiram do controle, os sentimentos descarrilharam em uma cruz de Santo André. E os veículos sobre trilhos têm sempre a preferência.

Era feia? Burra? Gorda? Não sabia. As vezes ouvia elogios, e se perguntava quanto e quem teria pago para que fossem ditos. Os amigos e família a contradiziam e repetiam: O problema não é você, é um idiota, ele não te merece. Mas eles eram amigos e familiares, a função deles era achá-la ótima.

Uma das próximas até desenvolveu uma teoria: Você sabe onde está, de onde veio e pra onde vai, isso inibe as pessoas. Era uma boa teoria, mas ela não sabia como mudar essa postura porque realmente sabia, ou achava que sabia essas três coisas.

A taróloga há muito tempo disse que o amor de sua vida ainda iria aparecer, e seria ar-re-ba-ta-dor. Cadê? Falou até em casar na igreja de véu e grinalda. Eu? A Idea até encantou, mas NE sinal. Tarólogos sempre erram. Essa até tinha acertado algumas coisas... pensamentos íntimos que ela nunca disse a ninguém.

Começou a contar as estrelas de plástico no ritmo das batidas. Não sabia se o coração estava acelerado ou se ele era sempre nesse ritmo e ela não tinha percebido. Pelo menos estava viva. Sentimentos não matam. Não literalmente, metaforicamente é outra história.

Vai passar. Esse projeto de profecia foi unânime. Vai? Quando? Não conseguia dormir, precisava escrever. Se levantou da cama em um pulo, vestiu pijamas, ela dorme pelada, subiu os degraus de madeira até o escritório, pegou um sulfite A4, 90 gramas, uma caneta bic e começou:

“Colocou as mãos sob os seios enquanto encarava o teto branco repleto e estrelas de adesivos que brilham no escuro.”

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Independência ou morte

Estava conversando com o meu pai, sobre mais um dos meus questionamentos, e disse: Eu nasci na geração errada, pus me a explicar o porque.

Nós, nascidos pelos arredores dos anos noventa, fomos criados para sermos independentes. Fazemos parte de uma geração de auto-suficientes, que tem à mão todos os tipos de aparelhos e informações. Temos autonomia, temos velocidade, somos uma geração drive-thru, geração de pronta entrega.

Temos carros pré-moldados, e opiniões também.

Somos os pós-reacionários, temos a rebeldia e não achamos a causa. Temos a internet e movimentações políticas cibernéticas. Somos protestantes sentados.

Ganhamos tudo pronto, com manual de instrução em linguagem simplificada. Vivemos de atalhos e Ctrl+C, Ctrl+V. Temos nossos carros parcelados em 48 vezes, computadores em um celular, temos tudo de mão beijada pela eficiência.

Somos a geração do foda-se, do relaxa que depois da certo. A geração dos acomodados que não perdem nada. E, vivemos em uma sociedade em que inteligentes são aqueles que ganham sem esforço, onde o dinheiro vale mais do que o trabalho.

Temos tudo, temos rápido e temos agora.

Não só no material, somos expressos em nossos relacionamentos, aprendemos que quando algo quebra é preciso jogar fora. Inclusive nossos amores.

Somos a geração micareta, a geração não lembro se eu beijei. Nada mais nos prende, nem dinheiro, nem casamento, nem necessidade. Temos tudo ali, e no entanto não temos nada.

Nossos namoros duram quinze dias, as vezes eles nem acontecem. Nossas amizades duram o período letivo, somente a festa dura pra sempre.

Falei por horas sobre isso, sobre essa geração que jogava cobrinha escondido no celular da mãe. Sobre nós que vimos a tela do celular ganhar cor e virar touch, e ele me disse:

- Filha, você está errada. Nessa geração de independência, uma coisa nos prende, e só ela, porque o resto nós conseguimos sozinhos. Sabe o que é?

- Não pai, não sei.

- É a palavra que você tanto evita porque pensa que é clichê.

-O amor?

- É, o amor. Na sua geração, você sabe que quando suas amizades durarem anos, existe amor, quando seu relacionamento perdurar, existe amor, quando alguns objetos forem guardados pela história ou por carinho, existe amor. Filha, vocês serão os primeiros a viver juntos por essência. Os primeiros a se casarem por amor, não por tradição, nem por obrigação ou circunstância.

Parei de transcrever a minha história aqui. Passei três dias relendo o que tinha escrito, e tentando acreditar nas palavras do meu pai. Estou tentando me convencer até agora. Meu pai tem 50 anos, eu tenho 19, ele provavelmente entende mais da vida do que eu. Ele deve ter razão. Eu queria que ele tivesse. Pra saber que em meio a tantas desventuras ainda existe algo. Qualquer algo que não seja só vazio, algo que signifique e que preencha. Um motivo pra tudo isso. Vou esperar 30anos, depois eu analiso.

domingo, 13 de maio de 2012

Minha sorte

Hoje é dia das mães, e eu estou longe da minha. A faculdade não me permitiu ir pra casa, e então eu fiquei. Falei com toda a família pelo telefone, obrigada tecnologia, mas não é a mesma coisa e eu estou com saudades de todos.


Eu queria agradecer, à minha mãe, aos meus pais, por terem me incentivado, e acreditado em todas as minhas vontades loucas, meus sonhos mirabolantes. Agradecer por terem confiado em mim quando eu disse que ir pra África do Sul seria uma boa idéia, quando eu disse que queria tocar violão, mesmo sem ter o menor dom musical, quando eu desenhava nas aulas de matemática e eles apreciavam o desenho ao invés de questionar o porque eu não estava prestando a atenção na aula, por ter não só incentivado, mas também arcado com as despesas, quando eu disse que queria estudar artes como graduação em uma cidade a mais de 1000km de distância.

Queria agradecê-los por nunca dizerem que eu vou morrer pobre por querer ser artista.

Queria também agradecer a minha irmã, que muitas vezes representou um papel de mãe, me levando, me buscando, me defendendo e ouvindo minhas crises que não foram poucas.

Agradecer a minha avó que cuidou de mim na minha infância, e me ensinou que se a gente não aprendesse a dividir o controle da TV ela iria quebrar o controle em uma porrada só. Como já aconteceu. E por ter tido paciência, eu não fui uma criança fácil.

Queria agradecer minha mãe, mais uma vez e interminavelmente, por toda a energia depositada em mim, todo o investimento e todas as vezes que quando eu disse que não sabia o que queria fazer da vida, ela me respondeu: Pelo menos você sabe o que não quer.

Agradecer ao meu pai, por ter me ensinado a sobreviver no meio do mato, a montar um forno de barro, a jogar gamão e dirigir.

Agradecer a ambos, pela liberdade que me foi dada desde o princípio, e por ter me ensinado a andar de ônibus com 11 anos. Agradecer meu pai por ter forçado a mim e a minha irmã a ir andando sozinha pra aula. E agradecer por ele ter seguido a gente todos os dias, pra ter certeza que a gente ia chegar bem.

A todos vocês, que um dia já foram ‘mães’ em minha vida, um sincero e eloquente obrigada. Tenho por vocês uma apreciação enorme, e uma sorte maior ainda por nunca ter ficado desamparada.

Queria estar perto hoje, eu não diria tudo isso pessoalmente, porque eu não sou do tipo que admite, mas saibam, vocês são fundamentais na minha vida.

Com muito amor, Jullia

domingo, 6 de maio de 2012

Sem pé, sem cabeça e sem amor

Tem gente que diz que é carma, eu inclusive. Mas digamos que meus relacionamentos amorosos não tenham sido meus maiores sucessos ou conquistas.

Sou de sagitário. Sim, acredito nessas bobagens.

Me apaixono fácil, e desapaixono também. Não sei se já amei alguém.

Tenho suspeitas, mas só vou saber se foi amor quando eu amar alguém de novo. Ou quando amar alguém pela primeira vez.

Sou secretamente romântica, e apesar de não mandar corações na internet, nem chamar aos outros de linduxos, eu gosto de receber flores. Gosto que alguém abra a porta pra mim, e gosto de fazer um sanduiche caso o romance da vez esteja com fome.

Considere seu sanduíche uma prova de amor.

Gosto de conversar, sobre Friends e Almodóvar. Sobre Turma da Mônica e Rousseau. Não sei ficar em silêncio. As vezes me calo, mas a mente continua, e o silêncio é apenas externo.

Sei andar sozinha, sei manejar uma faca, sei socar pomo de Adão.

Sei me virar sozinha, mas as vezes prefiro ter alguem pra me acompanhar, defender e todas essa coisas anti-feministas.

Não sou feminista. Gosto de gentilezas, e que puxem a cadeira pra mim.

Queria gostar de alguém. De preferência que gostasse de mim de volta.

Faz um tempo que meu raciocínio atropela meus sentimentos e eu acabo com as coisas antes de elas se tornarem reais. Ou mais reais.

Não sei exatamente o propósito desse texto, dessas palavras, mas eu preciso desabafar e o teclado não me interrompe pra ver se eu quero pipoca. Ele me escuta. Escuta meus dedos. Já é alguma coisa.

Me pego pensando se algum dia vou deixar a segunda opção. Não para ser a primeira, mas pra ser a única. Minha mãe me disse que leva tempo. Pra ela levou 43 anos. Segundo ela.

Queria sentir o sentimento de só querer um. De só existir um. Mas meus pensamentos divagam por dois, as vezes três, um deles sempre se repete, mas isso é história pra outro dia.

Queria me apaixonar, e sentir borboletas no estômago, teve uma época que eu sentia. A história acabou tão mal que as borboletas foram corroídas pelo meu ácido estomacal.

Talvez minha missão na terra seja curar o coração das pessoas. Elas ficam comigo e logo começam a namorar. Outra, que não sou eu.

Vou começar a vender meus serviços, já tenho 8 clientes satisfeitos. Acho que é carma, macumba, não sei. Mas funciona. O serviço vai custar 50 reais por cada vez que eu pensar em você, com um desconto de 10 reais a cada vez que você pensar em mim. Vou elaborar melhor meu plano de venda e negócios.

Eu queria não ter que me preocupar em ser interessante, queria ser interessante sem esforço, do mesmo jeito que a gente faz com amigos. Amigos eu tenho. Serve?

Não.

Nada contra meus amigos, adoro meus amigos, as vezes até fico com meus amigos. Mas não, queria algo diferente. Algo maior que eu, existe ou é tudo invenção de Hollywood?

As pessoas realmente se apaixonam ou elas se acomodam e se convencem que elas estão living the dream? Existe amor? Amor com ‘a’ maiúsculo?

Ou o amor é um tipo de pé grande, que todo mundo sabe como se parece, descreve conta histórias, sabe onde ele mora, mas na verdade nunca viu?

Esse texto não faz mais sentido, mas o que é que tem? A vida também não faz.