Há tantas coisas as quais eu queria que você soubesse. E todas elas, eu queria que você quisesse saber. Já disse e repito: Eu queria querer alguém que me fizesse querer querê-lo. Mas eu não quero. Quero você.
Não incondicionalmente, mas uma pontinha de mim não me deixa esquecer que talvez fosse gostar de ver aquele show, beber aquela bebida, sentar-se naquela roda. Eu tenho plena consciência de que nada me foi prometido, e que a questão é tão somente minha comigo mesma. Mas como eu disse eu não queria te querer. É involuntário.
Não sei ser do tipo que implora por carinho, ou que evidencia sentimentos. Você provavelmente desconhece que essas palavras são entregues a você. Se é que você está lendo.
Já até pensei em não te convidar para mais nada, e nunca mais, em hipótese alguma, te contar coisas sobre mim ou minha vida. Mas, logo me dou conta de que você não iria sequer perceber.
Não existe um ‘nós’ entre mim e você.
O que me acalma é saber que ‘nós’ é uma palavra dêitica, e o que é dêitico é mutável. Varia conforme queira... É como ‘ali’, que pode ser ‘lá’, ou do lado oposto de ‘lá’, talvez ‘adiante’ ou ‘acolá’. ‘Nós’ é dêitico como ‘você’.Acima de tudo, é dêitico como ‘aqui’ e ‘comigo’.
sábado, 27 de agosto de 2011
domingo, 5 de junho de 2011
Meio-dia
Abriu a geladeira e pegou um tomate, cortou-o ao meio, tirou os defeitos e pôs se a picá-lo em cubos pequenos e padrões. Cubos vermelhos com algumas sementes que aparentemente não eram defeitos.
Descascou a cebola, e pôs se a chorar. Não de emoção, de cebola. Lavou os dedos duas vezes, e depois mais uma. O cheiro da cebola entrava na pele e em cinco minutos se tornava dela. A única parte que repugnava na cozinha.
Ela cheirava à tomate, alface, fritura e alho, mas cebola não. Tinha o cabelo preso a um coque que deixava escapar mechas na região dos olhos que se moviam para frente e para trás conforme ela tentava esmagar um alho com a lateral da faca. Ficava mais fácil tirar a casca, e o sabor fluia mais, Ela como sempre gostara de cozinhar, sabia esses truques que mãe ensina durante a vida.
Limpou a mão no avental amarrado na cintura fina, desgrudou um pedaço de salsinha da meia calça e começou a estalar fósforos tentando acender o fogão. Uns escapuliam, outros se quebravam, mas um acendeu. O fascínio era tão grande que depois de acender a terceira boca, ela ficou ali olhando para o palito sendo consumido, até queimar-lhe a ponta dos dedos. Riu com seu devaneio. A cozinha era um sonho.
Panelas a postos, colher na mão e logo o arroz já estava encaminhado, o feijão quase fervendo, a salada organizada e a carne picadinha. O som da cozinha era como uma orquestra, coordenada pela figura magra e bonita que não cheirava à cebola.
Os cheiros de comida pronta saltavam das panelas em direção as narinas que iam se acumulando, primeiro a dela, depois a das crianças e em seguida a do marido, que não era dela. Pegou as panelas que não eram dela, e serviu às crianças que não eram dela, tirou o avental que não era dela, e foi para a sala passar cera no chão. O sonho acabara, e ela cheirava à cebola.
Descascou a cebola, e pôs se a chorar. Não de emoção, de cebola. Lavou os dedos duas vezes, e depois mais uma. O cheiro da cebola entrava na pele e em cinco minutos se tornava dela. A única parte que repugnava na cozinha.
Ela cheirava à tomate, alface, fritura e alho, mas cebola não. Tinha o cabelo preso a um coque que deixava escapar mechas na região dos olhos que se moviam para frente e para trás conforme ela tentava esmagar um alho com a lateral da faca. Ficava mais fácil tirar a casca, e o sabor fluia mais, Ela como sempre gostara de cozinhar, sabia esses truques que mãe ensina durante a vida.
Limpou a mão no avental amarrado na cintura fina, desgrudou um pedaço de salsinha da meia calça e começou a estalar fósforos tentando acender o fogão. Uns escapuliam, outros se quebravam, mas um acendeu. O fascínio era tão grande que depois de acender a terceira boca, ela ficou ali olhando para o palito sendo consumido, até queimar-lhe a ponta dos dedos. Riu com seu devaneio. A cozinha era um sonho.
Panelas a postos, colher na mão e logo o arroz já estava encaminhado, o feijão quase fervendo, a salada organizada e a carne picadinha. O som da cozinha era como uma orquestra, coordenada pela figura magra e bonita que não cheirava à cebola.
Os cheiros de comida pronta saltavam das panelas em direção as narinas que iam se acumulando, primeiro a dela, depois a das crianças e em seguida a do marido, que não era dela. Pegou as panelas que não eram dela, e serviu às crianças que não eram dela, tirou o avental que não era dela, e foi para a sala passar cera no chão. O sonho acabara, e ela cheirava à cebola.
domingo, 15 de maio de 2011
A cadeira
Sentado na poltrona, observava o tempo que corria pela cadeira da mesa.
De madeira com cascas pulando pelas costas e cheia. Cheia de histórias, de música, de memórias. A cadeira cheirava à saudade e fazia o peito doer. Junto com o peito doía a retina. Não saiam lágrimas, por isso que doía. Sem planos para ir embora, era remanescente e muito bem acomodada. A dor morava ali. Se aconchegara em algum lugar intransponível e só dava a graça de vez em quando, de vez em sempre.
Não era o tipo de dor que impede felicidade, É do tipo que visita, e aí dói a retina. Como já foi dito. Ele estava ali, Ouvindo a música que escapava da cadeira, o som da voz, do batuque, das risadas. Era o tiquetaquear dos anos, o som de vida interrompida pela morte.
As histórias que escorriam pelas pernas roliças de madeira velha, contavam sobre crianças sentadas ao redor de seus pés, estonteadas com as maravilhas que os lábios ali sentados gostavam de narrar.
As mãos, também na cadeira, voavam pelos ares buscando expressões. A história não se continha naquelas paredes, a história transcêndia a casa, a cidade, a terra. Foram vividas em outros tempos. Tempos com mágica, criaturas e parceiros para sempre. Tempos que a cada janeiro, se distanciavam milhares e milhares de anos.
Os lábios se foram, junto com as mãos e com a magia, e naquele canto restou a cadeira, e dentro dela, a saudade.
De madeira com cascas pulando pelas costas e cheia. Cheia de histórias, de música, de memórias. A cadeira cheirava à saudade e fazia o peito doer. Junto com o peito doía a retina. Não saiam lágrimas, por isso que doía. Sem planos para ir embora, era remanescente e muito bem acomodada. A dor morava ali. Se aconchegara em algum lugar intransponível e só dava a graça de vez em quando, de vez em sempre.
Não era o tipo de dor que impede felicidade, É do tipo que visita, e aí dói a retina. Como já foi dito. Ele estava ali, Ouvindo a música que escapava da cadeira, o som da voz, do batuque, das risadas. Era o tiquetaquear dos anos, o som de vida interrompida pela morte.
As histórias que escorriam pelas pernas roliças de madeira velha, contavam sobre crianças sentadas ao redor de seus pés, estonteadas com as maravilhas que os lábios ali sentados gostavam de narrar.
As mãos, também na cadeira, voavam pelos ares buscando expressões. A história não se continha naquelas paredes, a história transcêndia a casa, a cidade, a terra. Foram vividas em outros tempos. Tempos com mágica, criaturas e parceiros para sempre. Tempos que a cada janeiro, se distanciavam milhares e milhares de anos.
Os lábios se foram, junto com as mãos e com a magia, e naquele canto restou a cadeira, e dentro dela, a saudade.
terça-feira, 10 de maio de 2011
Taís
Os lábios se distanciavam por um centímetro. Não dois pares de lábios, dois lábios. Nunca vira superior e inferior se tocando. Eles só pairavam num rosto sonolento e desavisado.
Era provavelmente uma condição médica, porque o garoto respirava pelas papilas. Se não fosse doença, não tinha desculpa que justificasse aquele espaço de um dedo no meio da boca.
Até comendo. Ou o garoto engolia de boca aberta ou só quando ninguém estivesse olhando. Não era possível! Pra mastigar, de boca fechada ele não fazia questão. Deviam filmar a boca dele durante uma refeição. Daria pra explicar a digestão do amido de forma dinâmica.
E o garoto da boca aberta tinha um amigo de bochechas grandes. Ela podia jurar que uma mão espalmada não cobriria toda a área de possível contato, a bochecha dele se media em pés. Elas sobrepunham a boca e geravam um visual ‘Emília a procura do visconde’
Perto daquelas bochechas, até o nariz se inibia, os olhos fitavam miúdos e as orelhas se escondiam. Pra complementar, as bochechas eram fora do contexto, pois o menino era magro. Muito magro. O peso da cabeça fazia com que andasse pendulante.
Ao lado dele se sentava uma garota loira de cabelo descolorido e ressecado que era amiga de outra com gengivas que vazam os lábios. A loira namorava um menino narigudo com estômago alto que respirava pelo diafragma como uma criança de cinco anos.
Taís, a observadora, não tinha lábios separados, nem bochechas grandes, nem cabelo ressecado, nem gengivas aparentes, nem assunto.
Era provavelmente uma condição médica, porque o garoto respirava pelas papilas. Se não fosse doença, não tinha desculpa que justificasse aquele espaço de um dedo no meio da boca.
Até comendo. Ou o garoto engolia de boca aberta ou só quando ninguém estivesse olhando. Não era possível! Pra mastigar, de boca fechada ele não fazia questão. Deviam filmar a boca dele durante uma refeição. Daria pra explicar a digestão do amido de forma dinâmica.
E o garoto da boca aberta tinha um amigo de bochechas grandes. Ela podia jurar que uma mão espalmada não cobriria toda a área de possível contato, a bochecha dele se media em pés. Elas sobrepunham a boca e geravam um visual ‘Emília a procura do visconde’
Perto daquelas bochechas, até o nariz se inibia, os olhos fitavam miúdos e as orelhas se escondiam. Pra complementar, as bochechas eram fora do contexto, pois o menino era magro. Muito magro. O peso da cabeça fazia com que andasse pendulante.
Ao lado dele se sentava uma garota loira de cabelo descolorido e ressecado que era amiga de outra com gengivas que vazam os lábios. A loira namorava um menino narigudo com estômago alto que respirava pelo diafragma como uma criança de cinco anos.
Taís, a observadora, não tinha lábios separados, nem bochechas grandes, nem cabelo ressecado, nem gengivas aparentes, nem assunto.
terça-feira, 19 de abril de 2011
O pátio
Caminhava em passos desajustados, pendendo para as laterais. As calças grandes se prendiam logo abaixo do umbigo por um cinto verde musgo extra grande. A camiseta que folgava no ombros e apertava na barriga, sobrepunha o jeans e ressaltava a fivela prateada. Com pés curvados, usava um tenis com cadarços soltos cor marrom-pisoteado.
Carregava em seus braços livros que escapuliam pelas direções, e de modo desajeitado, segurava pelas rebarbas, caadernos abertos com folhas escapando das espirais. Com as mãos ocupadas, levou o rosto até a palma numa tentativa de ajeitar o aro dourado do óculos que escorregava pelo nariz. Acabou por imprimir as digitais do punho na lente esquerda.
Escalava até o outro lado do pátio da escola, por entre os estudantes, na expectativa de chegar até a sua sala com os livros inteiros. Os cadarços soltos ricocheteavam nas canelas e nas meias cinza escuro. Suor escorria por sua testa, desviando das espinhas e se concentrando na sobrancelha.
Foi quando o viu. O jovem formoso com boné para trás e pés direitos. Rodeado por capangas, tinha seus cadarços presos, e nem uma gota de suor. Com sua mochila quase vazia, usou as mãos livres para arrumas o óculos de sol, riu e gritou: ‘Depressa, Bujão!’.
A voz ecoou pelo pátio e os chapas começaram a rir repetindo: ‘Depressa, Bujão!’, alguns até encrementavam: ‘corre pra ver se emagrece!’
Por um mar de risadas ele se esquivou pela multidão, lutava contra os livros, e também contra as lágrimas, que se misturavam ao suor e camuflavam a humilhação que lhe escorria sob as pálpebras.
Carregava em seus braços livros que escapuliam pelas direções, e de modo desajeitado, segurava pelas rebarbas, caadernos abertos com folhas escapando das espirais. Com as mãos ocupadas, levou o rosto até a palma numa tentativa de ajeitar o aro dourado do óculos que escorregava pelo nariz. Acabou por imprimir as digitais do punho na lente esquerda.
Escalava até o outro lado do pátio da escola, por entre os estudantes, na expectativa de chegar até a sua sala com os livros inteiros. Os cadarços soltos ricocheteavam nas canelas e nas meias cinza escuro. Suor escorria por sua testa, desviando das espinhas e se concentrando na sobrancelha.
Foi quando o viu. O jovem formoso com boné para trás e pés direitos. Rodeado por capangas, tinha seus cadarços presos, e nem uma gota de suor. Com sua mochila quase vazia, usou as mãos livres para arrumas o óculos de sol, riu e gritou: ‘Depressa, Bujão!’.
A voz ecoou pelo pátio e os chapas começaram a rir repetindo: ‘Depressa, Bujão!’, alguns até encrementavam: ‘corre pra ver se emagrece!’
Por um mar de risadas ele se esquivou pela multidão, lutava contra os livros, e também contra as lágrimas, que se misturavam ao suor e camuflavam a humilhação que lhe escorria sob as pálpebras.
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