Quer ler o que?

domingo, 7 de abril de 2013

Hermano

A pressão nos ouvidos, os bocejos com ausência de sono, a torcida para que ninguém sente ao seu lado pra poder dormir melhor, o barulho ensurdecerdor que depois de alguns minutos passa despercebido, as comissárias de bordo andando de um lado para o outro dizendo para que você coloque sua bolsa em baixo do assento a sua frente, afivele o cinto, volte a cadeira para a posição inicial... Tudo isso é contagioso, muito contagioso.

Eu fui infectada por esse vírus há algum tempo. E como todo vírus, ele pode não estar visível para os outros em atividade, mas ele mora em você.

Estou no avião e ganhei na loteria. Ninguém sentou no conjunto de três cadeiras. Pernas esticadas, computador no colo, fone de ouvido (ao contrário do tiozinho vendo vídeo de futebol no ipad), e um chocolate. Sim, comprei um Lindt no Free shop.

Queria intensamente estar em vários lugares ao mesmo tempo (poderia inumerá-los, não vou). Mas um dos lugares é aqui mesmo. De cabelo sujo, moletom de boas lembranças e cheia de expectativas comedidas.

Quero chegar, descobrir novas respostas, reciclar as perguntas. Perceber mais uma vez que a terra é muito grande e eu sou muito pequena. Lembrar que, por mais que eu tente, não posso abraçar o mundo e nunca vou ver dele tudo o que eu deveria. Ver o que está fora para tentar entender o que está dentro. É uma necessidade vital que me gera entendimento. E inevitávelmente muda as perguntas. Mas a vida é assim, a gente nunca alcança, nunca ultrapassa.

Só peço que venha. Venha em formato de avalanche e arrebata tudo que não está no lugar. E o que estiver que se mantenha. Hasta la vista, chicos.

quarta-feira, 13 de março de 2013

Espetáculo

E o céu era azul.

E a vida continuava, os compromissos se aproximavam, os horários também.

E de repente o céu era cinza.

E a vida parou. A chuva caia, lavava o ar, o chão, os cabelos. Raios, trovões, o ar se renovava, levando a chuva para todos os lados. Os compromissos tiveram que esperar e os horários se perderam.

E então o céu era ocre.

A chuva parou, a vida voltou e os afazeres também.

Aos poucos o céu mudou.

E logo o céu era amarelo. Amarelo como nunca antes visto.

Um arco-íris cortava o ar, e o meu mundo parou.

Me apaixonei. Me apaixonei pelas cores, me apaixonei pelo tom que lentamente se tornava alaranjado e mais tarde se tornou vermelho carmesim. Quase magenta.

O céu fez seu próprio arco-íris, cor a cor. Lentamente se aproximou do roxo, e passou pelo azul. Agora ele está negro, a noite chegou. Um espetáculo com duração de uma hora. Cores inimagináveis, e um protagonista maravilhoso.

Que céu, meu deus, que céu.

sábado, 9 de março de 2013

Renato

É uma época de apatia. Algumas coisas me alegram, algumas coisas me chateiam. Meu mau humor está presente aonde quer que eu vá. Talvez não esteja tão divertida, interessante ou dedicada.

Não sei a causa, sei os sintomas. Posso culpar o fim do semestre, a saudade, a incerteza ou a ausência de pés no chão. Posso culpar inúmeras e incontáveis coisas, mas no fundo acho que sou eu mesma. Sou eu que talvez esteja procurando algo que não existe, e que na realidade nem sei o que é.

Li uma frase que mexeu comigo na última semana: 'Cada um tem o amor que acha que merece'. Não sei o porque de ter me incomodado tanto, e não me refiro ao amor de casal, me refiro ao amor em geral, amor à rotina, amor à amizades, amor ao que faço, amor à vida. Talvez eu não saiba que amor eu acho que mereço, ou se mereço amor algum.

Não é depressão, nem pensamentos negativos, é só um questionamento.

Peço perdão aos que tem apanhado das minhas palavras, sei que bati, só não sei o porque, ou como remediar. Talvez ache que não mereça o amor de vocês. Ou talvez seja só uma fase apática.

A vida continua e se entregar é uma bobagem.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Santa Maria mãe de Deus

Tenho arrepiado com frequência desde domingo de manhã. Acordei e entrei no facebook, para saber das notícias da festa anterior, ou dar risada em algum site. Meia hora depois, uma amiga me envia um link de um site de notícias. Começamos a acompanhar o incêncio na boate em Santa Maria.

As notícias iam sendo publicadas e o número de vítimas aumentando. Primeiro 90 mortos, depois 150, 200, até chegar no número 234. Duzentos e trinta e quatro pessoas não voltaram pra casa no dia 26 de fevereiro de 2013.

Para termos dimensão, consideremos um prédio de 2 apartamentos por andar, com 3 moradores por apartamento, e 8 andares. Nesse incêndio morreu gente suficiente para povoar 5 prédios como esse. Morreu uma sala cheia de cinema, morreram quatro ônibus lotados.

Em questão de segundos, o fogo tomou 234 sonhos para si. 234 filhos, 234amigos. Em meio as chamas se perderam amores, se perderam planos.

Minhas condolências àqueles que ficaram. Aos sobreviventes, e àqueles que agora tem que reaprender a viver com uma peça faltando. Minhas condolências aos pais, que agora estão orfãos, minhas condolências aos estudantes que vão se formar sem seus amigos. Condolências aos que perderam seus amigos de infância, seus primos, netos e sobrinhos.
Eu sinto muito. Sinto muito mesmo. À todos que perderam alguém, desejo muita força e muita coragem pra seguir adiante. Desejo serenidade para que compreendam o que aconteceu.

Boa sorte a todos, pois a jornada vai ser longa. Envio minhas boas energias.

Com todo o carinho que uma desconhecida pode oferecer,

Jullia

domingo, 2 de dezembro de 2012

Amanhã isso passa

Não consigo dormir.

Já virei para um lado, para o outro, e nada. Estou agora de barriga pra baixo, pra não ter que encarar o teto.

Me cubro e sinto calor, descubro e sinto frio. Meu travesseiro não está aconchegante, meu colchão me parece duro e minha cabeça está cheia de coisas que eu não sei descrever.

Minha companheira de casa fica vagando pela casa tentando suar suas saudades, a outra fechou a porta do quarto para tentar construir histórias. E eu aqui, no meio do caminho sem saber explicar porque que o sono não vem.

Os bocejos me fazem companhia, e as lágrimas também. Não é nada triste, eu só costumo lacrimejar quando estou cansada.

Acho que é isso, estou cansada.

Cansada dessa batalha diária, cansada de me esforçar pra ser oca, pra não sentir as coisas.

Cansada de acordar com ressaca moral, e não ler o material que eu preciso. Cansada de não adiantar minhas matérias na faculdade, de deixar tudo pra última hora.

Cansada de saber que não vou passar dezembro em casa, de saber que não estou acompanhando minha prima crescer.

Cansada de dizer pras pessoas tudo o que eu preciso fazer, e no fim do dia não ter produzido nada.

Cansada dos outros que ao invés de escreverem a própria história passam as tardes falando da minha, se achando no direito de me dizer o que é certo e o que é errado.

Acho que é isso, estou cansada.

Mas amanhã tudo isso passa. E pra amanhã chegar, eu preciso dormir.