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terça-feira, 16 de junho de 2009

Margaridas

Pedro entrou em casa, e jogou a pasta no sofá em frente da mesinha recheada de fotos. Chamou pela mãe. Manteve-se o silêncio. Foi para a cozinha, afrouxando a gravata, preparou um lanche, e olhou pela janela. Viu uma senhora de costas com um pincel na mão. Ela mergulhava a ponta do pincel em uma paleta com tintas que formariam uma tela predominantemente azul. Com tons variados, mas sempre azul. Lembravam ondas, lembrava a água, lembrava o mar.

Chegou falando alto, e contando sobre seu dia. Era uma rotina. Chegava, jogava a pasta, afrouxava a gravata e ia sempre para o jardim monologar com a mãe, nem que fosse por cinco minutos. Fazia isso desde sua adolescência. Evitava os olhos, mas contava detalhes do seu dia-a-dia.

Moravam num sobrado, só os dois. Mãe e filho. Deu uma mordida no sanduíche de pepino e ofereceu a mãe, que mergulhou o pincel em azul Royal. Elogiou a pintura, os cabelos, e as unhas cor de rosa e sujas de tinta. Foi para o banho.

Sentia a água escorrer, lavando todo o cansaço, o tédio e a força. Sentia a coragem escorrendo pelos dedos do pé junto com a espuma do xampu, que lavava corpo, pele e simpatia. O bom humor sintético escorrendo pelos ralos.

Enxugou o corpo, os olhos e refreou a vontade diária de chorar. De pijamas desceu as escadas e voltou para o jardim. A tela estava terminada. Uma Margarida branca afogada no fundo do quadro azul. Com cuidado, acompanhou a senhora, que segurava pincel e paleta na mão até o quarto. Limpou as unhas sujas de tinta, lavou as mãos já enrugadas pelos anos, e os cabelos brancos e longos. Não se olharam.

Arrumou-a na cama, e a cobriu como se fosse pai. E com um beijo na testa se despediu. Voltou para o jardim, recolheu a tela. Era domingo. Levou a obra para o quarto dos fundos.

Era pequeno e alto, muito alto. Cheirava a tinta. Com a luz acesa, podia se ver centenas de quadros azuis que subiam pelas paredes até o teto. Juntos davam a sensação de uma tormenta. Pegou a escada e subiu quase alcançando o teto. Mais um no meio de tantas Margaridas. Colocou em cima de um especialmente belo. Ao sair, agarrou uma tela branca e apoiou no cavalete, pronto para o dia seguinte.

Se sentia cansado, do trabalho e da rotina. Se sentia culpado, mas cumprindo seu dever. Queria se sentir leve, mas para isso precisava perdoar a si mesmo. Na sala, guardou as fotos espalhadas na mesinha de centro em uma caixa branca com um laço de madeira. Todas da irmã, Margarida, que na infância, ele assistiu ser levada no mar.

5 comentários:

  1. Menina de Deus, que texto bonito... beijo

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  2. Nuss, bom mesmo.... simbólico...

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  3. Júlia,
    Vejo que você transita com estilo também pelo caminho do drama, criando textos muito sensíveis!
    É legal ver seu trajeto de escrita na memória deste blog, que atesta um amadurecimento que vem se fazendo há dois anos...
    Muito bom!
    Boto fé.
    Margarida, a Amália.

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